Nos últimos anos, o debate sobre inclusão e diversidade no mercado de trabalho ganhou força e a tecnologia se consolidou como um dos setores mais promissores no Brasil. Porém, quando falamos sobre o impacto da tecnologia na vida de mulheres negras, há um longo caminho a ser percorrido.

Combinando desafios históricos de acesso à educação de qualidade, à discriminação racial e de gênero, a inclusão dessas mulheres em carreiras tecnológicas se tornou uma missão tanto pessoal quanto coletiva.

Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), as mulheres negras representam 28% da população brasileira. No entanto, elas ainda enfrentam as maiores desigualdades socioeconômicas, como menor acesso à educação e maior informalidade no trabalho.

Em 2021, por exemplo, as mulheres negras no Brasil ganhavam cerca de 44% a menos que homens brancos e ocupavam os cargos mais precarizados no mercado formal. No contexto educacional, esse cenário não é diferente. Dados mostram que apenas 10% das mulheres negras têm acesso ao ensino superior no Brasil, muitas vezes em instituições públicas que, mesmo inclusivas, não conseguem acompanhar as necessidades de formação tecnológica para o mercado atual.

Esse é um dado preocupante quando olhamos para o futuro do trabalho, que cada vez mais exige habilidades tecnológicas.

 

Mudança em potencial no setor tecnológico

O setor de tecnologia é conhecido por ser um dos mais dinâmicos e promissores, com alta demanda por profissionais qualificades. Entre as áreas em destaque estão desenvolvimento de software, ciência de dados, Inteligência Artificial e cibersegurança. Para muitas mulheres negras, a tecnologia não é apenas uma oportunidade de carreira, mas uma ferramenta de emancipação financeira e social.

Organizações como a PrograMaria e PretaLab, por exemplo, trabalham para ampliar o acesso de mulheres negras e indígenas ao mercado de tecnologia, com foco no desenvolvimento de habilidades técnicas e no combate ao racismo estrutural. Além disso, plataformas como a PrograMaria e a {reprograma} têm como objetivo a capacitação tecnológica de mulheres que, muitas vezes, foram excluídas do mercado tradicional.

Apesar dessas iniciativas, ainda há uma barreira significativa: o acesso ao ensino de tecnologia de qualidade. Muitas mulheres negras vivem em regiões periféricas, com poucas oportunidades de educação básica adequada, e enfrentam dificuldades para ter acesso a cursos de tecnologia de ponta, que muitas vezes são oferecidos por instituições privadas a um custo elevado.

 

O primeiro passo para transformação: a educação

O aprendizado tecnológico começa na educação de base e é nesse ponto que o Brasil ainda falha conosco, mulheres negras. O acesso desigual às disciplinas de ciências, tecnologia, engenharia e matemática (as chamadas STEM) limita as oportunidades dessas de ingressarem em cursos superiores nas áreas tecnológicas. Além disso, há uma carência de representatividade, com poucas mulheres negras atuando como professoras ou líderes em tecnologia, o que poderia inspirar outras a seguirem esse caminho.

Mesmo com políticas afirmativas, cotas raciais em universidades públicas, ainda existe um desequilíbrio entre homens e mulheres no acesso a cursos de tecnologia. Dados da UNESCO mostram que, em 2022, apenas 17% das estudantes de cursos relacionados à tecnologia no Brasil eram mulheres, e desse percentual, uma fatia ainda menor era composta por negras.

Apesar dos desafios, o Brasil tem avançado na criação de programas de inclusão digital e ensino de tecnologia para mulheres. Uma das estratégias mais promissoras envolve parcerias entre o governo, empresas de tecnologia, ONGs para garantir cursos gratuitos e bolsas de estudo em áreas como programação, ciência de dados e gestão de TI. Grandes empresas como Google e Microsoft já lançaram iniciativas voltadas para a inclusão de grupos sub-representados no mercado de tecnologia.

Além disso, vemos o aumento da demanda por profissionais qualificades no setor tecnológico durante e após a pandemia para novas oportunidades de trabalho remoto, o que pode ser uma vantagem, visto que, a maioria de nós, vive em regiões mais afastadas dos grandes centros urbanos.

 

Como mudar?

O impacto do ensino de tecnologia em nossas vidas é profundo e transformador, mas ainda enfrenta obstáculos. O acesso limitado à educação de qualidade, somado à discriminação racial e de gênero, restringe nossas oportunidades em um dos setores mais promissores do mercado. Contudo, iniciativas de inclusão e capacitação tecnológica têm demonstrado que é possível romper essas barreiras e abrir portas para um futuro mais justo e igualitário (olha eu aqui!).

A revolução tecnológica está em curso e cabe à sociedade brasileira garantir que as mulheres negras façam parte dela, tanto na educação quanto no mercado de trabalho. Afinal, a diversidade é um fator essencial para a inovação, e quanto mais plurais forem os times, mais longe poderemos ir.

 

Artigo escrito por Greice da Hora, da Comunidade Programaria.

 

REFERÊNCIAS:

1. IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística)

Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil, 2021.

Disponível: https://www.ibge.gov.br

-Relatório que apresenta dados detalhados sobre desigualdades raciais no Brasil, incluindo acesso ao mercado de trabalho, educação e renda.

2.UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) Desigualdades de Gênero e Raça na Educação, 2022.

Disponível: https://unesdoc.unesco.org

– Relatório sobre desigualdades de gênero e raça em diferentes níveis educacionais no Brasil, com destaque para as áreas de STEM.

3.PretaLab

Mulheres Negras e Indígenas na Tecnologia, 2020.

Disponível: https://pretalab.com

-Estudo sobre a participação de mulheres negras e indígenas no setor de tecnologia, seus desafios e estratégias para inclusão.

4.Reprograma

Inclusão de Mulheres na Tecnologia,2021.

Disponível: https://reprograma.com.br

-Iniciativa voltada para a capacitação de mulheres em tecnologia, com foco em programação e desenvolvimento web, oferecendo cursos e workshops gratuitos.

5.Observatório das Desigualdades

Oportunidades no Mercado de Trabalho para Mulheres Negras no Brasil,2023. Disponível: https://observatoriodasdesigualdades.org.br

-Relatório que analisa as oportunidades de emprego no setor de tecnologia para mulheres negras e os desafios da inclusão racial e de gênero.

6. Google

Iniciativa Google para Startups – Inclusão de Mulheres Negras, 2020. Disponível: https://startup.google.com

– Programa de apoio a startups lideradas por mulheres negras, oferecendo recursos e mentorias para impulsionar a inclusão no setor de tecnologia.

7.ABEP (Associação Brasileira de Estudos Populacionais)

Desigualdade de Gênero e Raça no Mercado de Trabalho Brasileiro ,2021 Disponível em: https://abep.org.br

– Pesquisa sobre desigualdades de gênero e raça no Brasil, focando no impacto sobre a participação de mulheres negras no mercado de trabalho.