Fazer uma transição de carreira nunca foi algo simples. Exige coragem, reflexão e, muitas vezes, envolve aquele famoso frio na barriga. Mas a verdade é que, nos últimos anos, mudar de carreira deixou de ser exceção e passou a fazer parte da regra. E isso não é só porque a gente muda como pessoa — é também porque o mundo mudou. A transformação digital acelerou muitos processos, eliminou algumas profissões, criou outras tantas e, principalmente, abriu um leque de possibilidades de trabalho que antes pareciam restritas a um grupo muito específico de pessoas. Hoje, com um computador e acesso à internet, qualquer pessoa pode aprender, se conectar e trabalhar com tecnologia, de onde estiver.

E é por isso que tanta gente vem se interessando pela área de tecnologia. Porque ela não é mais sobre programar para grandes corporações no Vale do Silício. Ela é sobre resolver problemas, criar soluções, desenvolver produtos que afetam o nosso dia a dia. É sobre impacto. Mas, claro, a gente sabe que esse processo de mudança gera muitas dúvidas. “Será que eu dou conta?” “E se eu não gostar?” “Preciso largar tudo agora?” Essas perguntas fazem parte. E a boa notícia é que existem caminhos para tornar essa decisão mais leve, mais estratégica — e menos solitária.

O primeiro passo para tomar uma boa decisão sobre sua transição de carreira é entender que ela não precisa ser feita de forma impulsiva. Não existe um botão mágico de “mudar de vida”. Existe planejamento. Existe teste. Existe pesquisa. E, principalmente, existe autoconhecimento. E aqui entra o primeiro convite: antes de decidir mudar, pare um pouquinho para se escutar. Quais são seus interesses reais? Quais são seus valores? Que tipo de rotina você deseja ter? Que tipo de ambiente de trabalho faz sentido para você? Parece papo de coach, mas essas perguntas são essenciais para que você entenda se a área que está mirando está alinhada com o que você realmente quer construir.

Feito isso, o segundo passo é buscar informações confiáveis sobre o universo que você quer explorar. E, nesse ponto, algumas ferramentas podem ser grandes aliadas. Uma delas é o Ikigai, um conceito japonês que pode ser usado como uma bússola para entender onde seus interesses, suas habilidades, o que o mundo precisa e o que você pode ser pago para fazer se encontram. Fazer esse exercício pode abrir seus olhos para possibilidades que você nem tinha considerado. Pode te ajudar a enxergar como seus talentos de hoje podem ser transferidos para novas funções na área de tecnologia.

Outra ferramenta super prática é a Matriz de Eisenhower, que ajuda a priorizar o que é urgente e importante. Aplicada à transição de carreira, ela pode te ajudar a entender quais passos precisam ser dados agora e quais podem esperar. Por exemplo: talvez seja urgente e importante atualizar seu currículo. Ou talvez você descubra que é importante fazer um curso, mas que isso pode ser feito em paralelo com o trabalho atual, sem pressa. Essa clareza sobre prioridades reduz a ansiedade e te dá mais controle sobre o processo.

E tem mais uma ferramenta bem útil chamada Roda da Vida. Ela ajuda a mapear as áreas da sua vida (trabalho, finanças, saúde, relacionamentos, aprendizado, lazer etc.) e avaliar seu nível de satisfação com cada uma. Quando você visualiza isso, entende melhor onde estão seus desequilíbrios e pode usar essas informações para tomar decisões mais conscientes. Às vezes, a motivação para mudar de carreira está muito mais ligada à busca por equilíbrio do que por uma nova profissão em si. E tudo bem. É uma descoberta.

Agora, nenhuma ferramenta vai substituir o poder de conversar com quem já trilhou o caminho que você quer seguir. Grupos de apoio, mentorias, comunidades e fóruns podem ser o divisor de águas na sua transição. Às vezes, uma conversa de 30 minutos com alguém da área pode valer mais do que três meses de pesquisa sozinha. Porque quem já passou por essa jornada consegue apresentar a realidade nua e crua: as partes boas, as partes difíceis, as dicas que ninguém conta. Isso não só te ajuda a tomar uma decisão mais consciente, como também humaniza o processo. Você percebe que outras pessoas também tiveram medo. Também se sentiram inseguras, mas seguiram em frente.

Se conectar com essas pessoas é mais fácil do que parece. Existem muitas comunidades on-line (como a própria PrograMaria!) que estão aí para acolher e apoiar quem está começando. Tem grupo no WhatsApp, no Discord, tem encontros presenciais em algumas cidades, tem evento gratuito rolando o tempo todo. E quanto mais você se aproxima dessas comunidades, mais se sente parte delas. E quando a gente se sente parte de algo, fica mais fácil seguir em frente.

Outro ponto importante é entender que transição de carreira não precisa ser sinônimo de ruptura total. Tem gente que vai preferir largar tudo de uma vez e se jogar de cabeça. E tem quem prefira ir testando aos poucos, fazendo freelas, cursos, projetos paralelos. As duas formas são válidas. O importante é escolher o caminho que te dá mais segurança emocional e financeira para seguir. Se hoje você não pode abrir mão do seu trabalho atual, tudo bem. Você pode começar estudando aos poucos, nos horários disponíveis, e construindo essa nova trilha no seu tempo. Lembre-se: não é uma corrida. É um processo.

E falando em processo, uma coisa que ajuda muito é colocar metas claras e realistas. Ao invés de dizer “quero mudar de carreira”, que tal transformar isso em pequenas metas semanais ou mensais? Tipo: “até o fim do mês, quero entender melhor a diferença entre front-end e back-end”; “esse mês quero fazer meu primeiro curso introdutório de lógica de programação”; “até julho quero conversar com pelo menos três pessoas que trabalham com tecnologia”. Isso transforma um grande desafio em pequenas vitórias. E cada pequena vitória te aproxima mais do seu objetivo.

Ah, e uma dica que não pode faltar: registre sua jornada. Pode ser em um caderno, em uma planilha, em um blog pessoal, como preferir. Mas escrever sobre o que você está sentindo, aprendendo, descobrindo, é uma forma poderosa de refletir sobre sua caminhada. Além disso, quando bater o desânimo (e ele vai bater, em algum momento), reler tudo o que você já percorreu pode ser uma baita injeção de ânimo.

Por fim, lembre-se de que toda decisão importante vai envolver riscos. Mas existem dois tipos de riscos: o de se arrepender por tentar, e o de se arrepender por nunca ter tentado. A maioria das pessoas que fazem uma transição de carreira não se arrependem da mudança em si — se arrependem de não terem começado antes. E isso não é um incentivo ao impulso. É um chamado à ação com consciência. Quanto mais você se informa, se conecta e se prepara, mais chances têm de fazer uma transição segura, leve e bem-sucedida.

Você não precisa ter todas as respostas agora. E tudo bem não saber exatamente onde vai parar. A beleza da transição é que ela é feita caminhando. Você vai aprender no caminho. Vai errar, vai ajustar, vai crescer. E, mais importante, vai se conhecer muito mais.

Se você está lendo esse texto e está sentindo aquele friozinho na barriga, talvez seja o seu sinal. O sinal de que algo dentro de você já está mudando. E isso já é um ótimo começo. A tecnologia precisa de gente como você: curiosa, comprometida, com vontade de fazer diferente. O mercado está mudando, e você também pode mudar junto.

Se joga — com planejamento, com apoio, com calma. Mas se joga. O futuro da sua carreira pode estar bem aí, no próximo passo.

Este conteúdo faz parte da ProgaMaria Sprint Primeiros Passos em Tecnologia

CRÉDITOS

Autora

Ana Uriarte, Cofundadora na Happen/Quark, edtech pernambucana focada no desenvolvimento de habilidades comportamentais que já impactou mais de 45 mil alunos da rede pública no Brasil. Fellow do YLAI, programa do governo americano, premiada no programa MIT Innovators Under 35 LATAM. É também co-autora do livro “Ecossistemas de Inovação” e foi TEDx Speaker com o tema “O efeito borboleta na educação”. https://www.linkedin.com/in/anauriarte

Revisora

Luciana Fleury, jornalista https://www.linkedin.com/in/luciana-fleury-1b024083/